Eu aceito
Fim de tarde. Antes disso, você ajudou um amigo a montar a casa nova, na verdade uma mudança, a casa é antiga, mas a expectativa ao se mudar de casa é nova, ainda mais no começo do ano. Você almoçou com sua esposa, que está grávida, naquele self-service habitual, simples. No prato uma bisteca. Não. Foram duas, você deve confessar. Lá vocês conversam sobre o filho que chegará em breve, pois não existe outro assunto tão importante e tão doce. Antes disso ainda, uma reunião de trabalho que te desgasta um pouco, mesmo sabendo que é a coisa certa. E ainda um pouco mais cedo, ao mesmo tempo em que você prepara o café, os pedreiros da imobiliária chegam para dar manutenção em algo que deveria ser reconstruído.
Tudo bem. Agora, leve em conta o fato disso tudo acontecer em uma cidade pacata no interior de São Paulo, onde você pode se locomover a pé por onde for. E a cada caminhada, apesar da mesmice das ruas e trajetos, ela te oferece histórias incríveis.
Fim de tarde. Você caminha com um amigo, dos melhores, para casa. No caminho resolve se importar com uma pessoa, que necessariamente não é um amigo, mas você o conhece, sabe das suas dores. Pára, conversam por 20 minutos, na verdade vocês ouvem. Em casa, resolvem comer o melhor espetinho de carne de porco num raio de 300km. A menos de 20 metros você ouve uma cantoria. Ao chegar no bar, a cena tem um som incrível: moda de viola, quatro caras sentados, dois deles tem fivelas de boiadeiro, um está sujo o outro não; não é uma viola, é um violão, 6 cordas, nylon; ele toca e canta; sua voz simplesmente é incrível, perfeita para a música caipira, deixa a música forte, não irritante; um outro está em pé, em frente, ele tem uma fivela também, ele tem esporas na bota, sim, esporas e chapéu; tem uns 60 anos e recita os versos, histórias de amor ou “causos”, antes de cada música; recitou a história do “menino da portera”.
Quatro espetinhos, uma coca-cola, o de sempre. Mas por alguns minutos, ali, com a música ao vivo, música que mesmo que você não goste, ou diga que não goste, você tem que respeitar, pois canta sua história, canta sua terra. Tem orgulho do bom ali. Confesse, emociona. Você pensa em gravar um video. Não.
Versos improvisados, despedida, cavalgada. O respeito é recíproco e quando percebe você está no verso, seu amigo também. Sorriso, gratidão, cartão de débito. Você caminha de volta pra casa. Fez uma foto. Sabe que um texto jamais vai te levar de volta. É sua cidade, um bar, algumas fivelas. É a vida se oferecendo pra você.
… o dinheiro ficou pra trás. Hoje, ganha quem faz mais posts, tem mais amigos, quem tem mais marcações e tags em fotos no facebook. Dizer não, isso sim, é a agonia humana.
Eu queria,
que as verdades fossem mais presentes,
que as pessoas fossem mais verdade.
Eu queria,
que o amor fosse uma palavra,
ao abrir a boca, e o som dela saísse, tudo mudasse,
que o olhar brilhasse, a boca sorrisse, a mão estendesse, a paz reinasse.
Eu queria,
que os amigos nunca fossem embora,
que os inimigos tivessem meu sobrenome, meu sangue,
que o dinheiro comprasse, mas não vendesse.
Eu queria,
só pode respirar mais aliviado,
sabendo que tudo não passa de ilusão, ou sonho,
digo, as mentiras, as farsas, os enganos.
Eu queria,
que eu mesmo pudesse resolver os problemas e aflições alheias,
dos que eu amo, dos que eu não conheço.
Eu queria,
mas o querer já não me basta, me afasta,
quero é ficar próximo, daquele que é, que não precisa querer.
Como foi que chegamos até aqui?
cansado de frases feitas e olhares sem vida
de um respirar que só inspira e não está disposto a compartilhar
eu queria ver um pôr-do-sol com chuva e nuvens carregadas
onde estão as flores amarelas? os beijos doces?
porque se contentam com tão pouco? com o caminhar fácil e sem verdade?
um vento bom pode mudar tudo
e tais palavras voltam para de onde nunca deveriam ter saído.
NIGHTNIGHT by DEDDY